A PERMANÊNCIA NO MISTÉRIO

Reconhecer o mistério, identificar as manifestações do mistério, é também uma forma daquilo que se chama cair-em-si (a nossa origem é o mistério primeiro). MF Molder refere como possibilidades de alguém cair-em-si três exemplos:

  • Experiência amorosa (ex:confronto com a rejeição)

  • Relação com a morte (ex:morte de alguém próximo)

  • Arte (ex:estranhamento em relação a uma obra)

Algo que nos questiona existencialmente é sempre uma forma de cair-em-si (verdadeiro rosto do mundo, lugares onde se foi, lugares de onde se vem, a alma de cada ser). Uma das sensações mais fortes no cair-em-si é o estranhamento e a sensação de que está tudo por fazer, sempre esteve tudo por fazer (em relação a nós próprios e em relação ao mundo), um enorme sentimento de incompreensão:

«Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento... tenho saudades! Mas de quê?!» 

(Florbela Espanca)

Nesses instantes há a passagem de um estado de inocência para a necessidade de um estado de experiência. Há um depois e um:

e agora?

  • Ignorar, esquecer, não dar importância é sempre uma possibilidade (a mais confortável, não é preciso fazer nada), há o pressentimento de que se entra num caminho sem fim e isso assusta... mas desconfio que a dúvida do que aquilo é, do que se é, permanecerá sempre na vida (estaremos sempre na busca de entender aquilo que não queremos conhecer).

ou

  • «Deixar-se cair» e aceitar o Mistério, pressupor (como diz João Barrento) "a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. No momento em que essa intuição acontece dá-se também a entrada num segundo nível: a elevação da realidade apercebida a uma potência superior, a descoberta do mistério que há nas coisas. O mistério // está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva."

O que mais me fascina em MG Llansol é essa elevação da realidade apercebida e a revelação na escrita da sua permanência no Mistério...

«Estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério»

Sintra, maio de 2017

adua guerra santos

TEXTOS

MISTÉRIO e ARTE


« A Arte apresenta-se-me como o empenho de um individuo que, superando a estreiteza e a obscuridade, procura encontrar um entendimento com todas as coisas, das mais ínfimas às maiores e, nesses diálogos, procura aproximar-se mais do suave sussurro da fonte última de tudo o que vive. Os segredos das coisas fundem-se no seu íntimo com as suas próprias sensações mais profundas e falam alto dentro de si como se fossem os seus desejos mais profundos. A linguagem enriquecida destas confissões intimas é a Beleza.

Portanto o artista não só é uma pessoa desligada da vida, como também a Arte se apresenta como uma forma de vida mais movimentada – quase diria menos modesta – na medida em que aquele que cria também se dirige às coisas mais silenciosas com as suas perguntas suplicantes e, insatisfeito com todas as resposta, continua incessantemente o seu caminho.» (R.M.Rilke)


. Arte e Conhecimento


Dilema


Comparemos a nossa natureza em relação à ignorância ou falta de conhecimento [paideia], de acordo com a seguinte experiência: Imagine-se um conjunto seres humanos numa espécie de morada subterrânea em forma de caverna, cuja entrada aberta para a luz se encontra elevada e de difícil acesso. Eles encontram-se aí desde a infância. Imagine-se também que no exterior da caverna se passariam as coisas próprias da natureza; animais que passavam, aves a voar, folhas ao ventos, o dia e a noite, (os sons desses elementos que soariam com eco ampliado no interior da caverna). O movimento das coisas projetavam-se a determinadas horas, a determinada posição do sol, em sombras numa das paredes do interior, não julgariam os habitantes da caverna, não conhecendo outra coisa, que essas sombras (e o seu eco) eram a realidade exterior?. (coro: claro que sim!)

Consideremos agora que algum desses humanos, por uma necessidade inexplicável, decide, contra todas as regras da tradição, conhecer esse mundo exterior. Confrontado com a realidade não chegaria à conclusão que tudo o que tinha visto projetado nada era mais do que engano e ilusão? (...) E que estando agora no exterior o que ele via é que era a verdade? (…). Quando olhasse para o sol compreenderia que era ele era a causa de tudo o que ele e os seus companheiros tinham visto na caverna. A seguir contemplaria o céu e o que há nele, durante a noite contemplaria as estrelas e a Lua, ficaria completamente maravilhado com a beleza das coisas, regozijaria com a mudança e lamentaria os outros. Não sentiria ele que era impossível voltar para a vida anterior? (...) Mas não se sentiria também tentado a descer à caverna e anunciar a revelação aos outros? (...).

Primeiro pensou nas honrarias que receberia por tal descoberta, mas depois refletindo melhor e conhecendo o quanto os outros acreditavam naquilo que sempre tinham visto, no facto de ter desobedecido ao que estava instituído em relação aos perigos do exterior, e à grandeza da revelação, não achariam que estava louco? (...) O mais provável era que o castigassem e o prendessem para sempre nas trevas daquele mundo.

Se por um lado tinha vontade de voltar e anunciar: Eu vi a Luz (*), por outro seria mais fácil ignorar os outros e não arriscar represálias ou até ser morto.

Que fazer? Passou a ser o dilema que lhe ocuparia para sempre o pensamento e a vida solitária...



A reflexão sobre este irresolúvel dilema da Alegoria da Caverna (Platão, Republica, livro VII) é uma questão primordial no percurso do artista, da pessoa consciente; a relação entre conhecimento e ignorância. Se por um lado a melhor coisa do mundo é conhecer e entender, por outro é também um caminho sem regresso ao estado de inocência, à comodidade aparente da ignorância, à indiferença do não saber.

O Artista não lhe dá resposta, mas vive nesse dilema. Procura abrir brechas e dispara pequenos raios de Luz sobre as trevas da ignorância.(imagem: atira desenhos para o interior da caverna).



« Rasgou-se o véu do quotidiano, e surgiu uma realidade profunda, onde podes transportar-te aos alvores da humanidade e ombrear com os antepassados que davam os primeiros passos na história, num mundo ainda mágico, de deuses e demónios misturados com pessoas. Podem fabricar-se artificialmente essas circunstâncias nas quais se quebram as barreiras do tempo?.»

(Gaugin a partir de M.V.Llosa)





« tendo Deus dado a cada um de nós uma luz para discernir o verdadeiro do falso, não permitiria a mim mesmo dar-me satisfeito com as opiniões alheias » (Descartes, o discurso do método)


Voltemos ao nosso humano enquanto exemplo: não chegaria ele à conclusão que tudo o que sabia estava errado? (coro: claro que sim!) Que tudo o que tinha vivido até ali era fruto de uma ilusão, não estariam mesmo as coisas mais simples (as práticas da vida, como as relações humanas por exemplo) contaminadas por uma visão geral falsa? (...). Não precisaria ele de reorganizar o pensamento de forma a estar isento desses defeitos? (...).

A primeira conclusão a que chegou foi: tudo o que sabia estava errado.

Passaria então a observar tudo a partir dos seguintes princípios:

O primeiro consiste em não tomar nenhuma coisa por verdadeira sem que a reconheça interiormente como tal, quer dizer: em evitar cuidadosamente a precipitação e a facilidade no juízo.

O segundo consiste em dividir cada uma das dificuldades / questões no maior número de possibilidades que conseguir, procurando pesquisar o mais possível quem além dele pensou nisso...

O terceiro consiste em conduzir os pensamentos por ordem, começando pelos mais simples, pelo principio, para se elevar pouco a pouco, como degraus, até ao conhecimento mais complexo, supondo mesmo uma ordem entre aqueles que não se precedem, naturalmente, uns aos outros ( nas manifestações artísticas por exemplo).

O quarto em proceder a enumerações tão completas e a revisões tão gerais que possa estar certo de nada ter omitido dentro das suas capacidades, mas tendo presente que muito mais haverá concerteza que até ali não consegue enxergar. «Que sei eu?» (Montaigne)

Neste cair-em-si (na perspetiva da importância do conhecimento, e há outras formas referidas no tema do Mistério) surge a questão essencial (não só para o humano de hoje mas para o humano de sempre) :

Quem sou eu?

O que faço aqui?

A questão implica a passagem do estado de inocência para o estado da experiência - a procura do entendimento tomando consciência da coisa (das coisas).

E a determinada altura não pensará ele que essa tomada de consciência em si próprio é uma nova consciência? (…)

Na descoberta do Eu-consciente, que procura entender, essa descoberta há-de tornar-se cada vez mais viva, mais verdadeira, mais plena, e finalmente poderá tornar-se em si-próprio.

(Não esquecer que a todos correspondem certos limites, quanto é que se é capaz de apreender de modo a que se possa entender?)(Goethe)



(*) Fazendo a analogia interessante entre as intenções de Jesus e a Alegoria da Caverna (e é possível que Jesus tivesse conhecimento dela). Poderemos encontrar nessa intenção de salvar o mundo a procura de uma resposta através da ideia de um Messias (“não era a Luz, mas veio para testemunhar acerca da Luz” Jo 1:07, “a luz veio ao mundo; e os homens amaram mais as trevas que a luz” Jo 3:19, “Aquele que vem do alto está acima de tudo” Jo 3:31). O resultado é a confirmação do temor do humano que viu a realidade das coisas, a verdade – foi crucificado... Mas a intenção de Jesus transcende esse facto que já era conhecido antes dele, através das sagradas escrituras. A grandeza da sua verdadeira intenção é : não há Salvadores. A salvação está em cada um de nós.




Herança e Dívida

Desenhar e escrever não para ensinar mas para contar, o que se herda daqueles que nos precederam, e nesse contar está também a intenção de pagar essa dívida, que ficará para sempre por saldar - “a não ser naquela sua parte em que um coração se obriga a revelar-se figurando, contando, pintando, resolução literária que não anestesia o escândalo da morte alheia e o terror da própria morte, mas dá forma comunicativa àquilo que só se conhece por iniciação, o confronto com a nossa própria vida.”(M.F.Molder)

se um artista desconhece a Arte que existiu antes da sua como poderá saber que aquilo que faz não foi já feito? Como poderá criar algo novo desconhecendo o que já existe?

Arte requer o humano na sua totalidade, quanto mais souber mais exige de si próprio, mais difícil é encontrar a originalidade, a criação pura - “ars totum requirit hominem”(C.G.Jung).



Inteligência e Consciência



« Se me disserem que é nulo o prazer de durar depois de não existir,

responderei, primeiro, que não sei se o é ou não,

pois não sei a verdade sobre a sobrevivência humana;

responderei depois,

que o prazer da fama futura é um prazer presente

- a fama é que é futura.

E é um prazer de orgulho igual a nenhum

que qualquer posse material possa dar.

Pode ser, de facto, ilusório,

mas seja o que for,

é mais largo do que o prazer de gozar só o que está aqui. »

(Livro do desassossego)



Segundo Fernando Pessoa (Herostrato e a busca da imortalidade) os humanos podem ser divididos em três tipos /grupos: Intelecto – Sentimento (emoção) – Vontade.


Há pessoas que são puro intelecto : os filósofos e cientistas. Outros puro sentimento: os místicos e profetas. Há os de pura vontade: Estadistas, guerreiros.

Há três tipos mistos:

  • Os de intelecto e sentimento são os artistas (de todos os géneros)

  • Os de intelecto e vontade são políticos e homens-de-negócios

  • Os de sentimento e vontade são religiosos e crentes na democracia.


A inteligência manifesta-se das seguintes formas: o génio, talento e argúcia (enquanto inteligência brilhante e activa, não do grau da inteligência comum). Estes três tipos não são contínuos relativamente uns aos outros, não são graus ou categorias de uma única faculdade ou função:

  • O génio é a inteligência abstrata individualizada (materialização concreta de uma faculdade abstrata)

  • O talento é a inteligência concreta tornada abstrata

  • A argúcia é a inteligência concreta individualizada (por vezes uma grande argúcia é confundida com o verdadeiro génio)


Poder-se-á supor que estas reflexões, estes pensamentos, não serão propriamente território de Artista (no caso da literatura por exemplo talvez não seja bem assim). E não servem de análise a um si próprio, porque como é do conhecimento mais ou menos geral quando alguém fala ou pensa sobre si - «eu sou uma pessoa...», o resultado é sempre uma história inventada, que pressupõe mais aquilo que se gostava de ser do que aquilo que se é, e até é frequente que reflita o oposto daquilo que realmente se é. Mas na tal perspectiva do(a) artista enquanto herdeiro pode ser útil; é frequente usarem-se termos como: génio / genial, de um grande talento / talentoso, muito esperto / de uma grande esperteza, quando se observa e analisam obras de Arte e se opina sobre artistas. Mas o mais importante sempre é que ter este tipo de pensamentos significa estar a “defender o pensamento” fazendo-o sentir-se a si próprio, respondendo a si mesmo, reconhecendo a importância da inteligência. (A.Artaud)

Regressando à consciência, pergunta-se agora: que tipo de consciência se tem? Sobre as coisas, sobre si, sobre o que está para além de si e das coisas?

Nestas questões encontram-se territórios, aparentemente, distintos da consciência:

  • Sobre o que o rodeia, a sua vida, o que se passa à sua volta, sobre o mundo

  • Sobre o seu eu, a sua mente, sobre o que se é e o que se gostaria de ser

  • Sobre algo que nos vê e não vemos, que transcende a realidade e estremece na memória, o reconhecimento da Alma, um tu sem o qual o eu não existe (Santo Agostinho)

Estes níveis de desenvolvimento da consciência também não são contínuos na relação uns com os outros, há quem tenha consciência exclusivamente sobre a vida prática, a relação com a sociedade, a sobrevivência. Ou alguém que pensa somente em si, nos seus problemas, nas suas necessidades ignorando os outros. Pode também ser unicamente espiritual, não fazendo ideia do que se passa consigo e à sua volta. Outras possibilidades mistas são possíveis. O que acontece geralmente é que quem se fixa num determinado nível tem tendência a subestimar os outros níveis.

Podemos também supor que estes graus de desenvolvimento são um caminho que conduz à inevitabilidade do confronto com o infinito, com o espírito, são de certa forma a preparação para a morte.


.Realidade e imaginação (metafisica ingénua)

« O que há de mais estranho na nossa realidade

é a beleza.

Isto é a maior das provocações. »

(Heiner Muller)

Olho para esta folha branca colocada sobre a mesa; apercebo-me da sua forma, da sua cor, da sua posição. Estas diferentes qualidades têm características comuns, entregam-se ao meu olhar como existências que posso somente constatar, e cujo ser em nada depende de mim. Estão presentes e são ao mesmo tempo inertes. Não dependem de qualquer espontaneidade ou consciência. Esta inércia do conteúdo sensível é a existência em si. É o que se chama a coisa. Em caso algum a consciência pode ser uma coisa, pois o seu modo de ser é um ser para si. Ter consciência da sua existência é espontaneidade pura face à realidade, ao mundo das coisas que é pura inércia. (J.P.Sartre)

Entregar o que se vê e o que se diz em favor do que se imagina, abandonar o curso ordinário das coisas e fazer um “convite à viagem(G.Bachelard). Devolver à imaginação o seu papel de sedução, pela imaginação abandonamos o curso vulgar da vida, imaginar é ausentar-se, é lançar-se a uma vida nova – a imaginação enquanto criadora de possibilidades...

É bastante sedutor para o artista o vislumbre da possibilidade de uma - constituição imaginal do mundo – a criação, de uma mística visionária, da imaginação absoluta, da realidade da imaginação. A imaginação deixa de ser um estado, é a própria existência do artista.(W.Blake)

(A imaginação vem do entendimento aplicado à impressão material produzida no cérebro, a folha branca convida à criação, à presença de uma ilusão, ou até ante-visão do que [ainda] não existe...)

.Mistério


Reconhecer o mistério, identificar as manifestações do mistério, é também uma forma daquilo que se chama cair-em-si (a nossa origem é o mistério primeiro).

Há várias possibilidades para alguém cair-em-si, três exemplos:

  • Experiência amorosa (ex:confronto com a rejeição)

  • Relação com a morte (ex:morte de alguém próximo)

  • Arte (ex:estranhamento em relação a uma obra)

Algo que nos questiona existencialmente é sempre uma forma de cair-em-si (verdadeiro rosto do mundo, lugares onde se foi, lugares de onde se vem, a alma de cada ser). Uma das sensações mais fortes no cair-em-si é o estranhamento e a sensação de que está tudo por fazer, sempre esteve tudo por fazer (em relação a nós próprios e em relação ao mundo), um enorme sentimento de incompreensão:

«Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento... tenho saudades! Mas de quê?!» (Florbela Espanca)

Nesses instantes há a tal passagem de um estado de inocência para a necessidade de um estado de experiência. Há um depois e um:

e agora?

  • Ignorar, esquecer, não dar importância é sempre uma possibilidade (a mais confortável, não é preciso fazer nada), há o pressentimento de que se entra num caminho sem fim e isso assusta... mas desconfio que a dúvida do que aquilo é, da coisa, do que se é, permanecerá sempre na vida (estaremos sempre na busca de entender aquilo que não queremos conhecer).

ou

  • «Deixar-se cair» e aceitar o Mistério, pressupor “a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. No momento em que essa intuição acontece dá-se também a entrada num segundo nível: a elevação da realidade apercebida a uma potência superior, a descoberta do mistério que há nas coisas. O mistério // está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva.”(J.Barrento).

O grande mistério da concentração absoluta, que faz tanto um artista como um erudito, um verdadeiro sábio como um louco, esta felicidade e infelicidade trágica da absoluta obsessão.” (stefan Zweig)

O mistério do index Secreto que o passado transporta consigo e que predestina à “salvação” para um presente certos momentos desse passado.(W.Benjamin)

O mistério da “verdade silenciosa e insuportável”(Inge Muller)

O Mistério de Deus...


a. guerra santos , Lisboa, novembro de 2017

« CONVERSA »

sobre

desenho, escrita e Grafite



« O mundo visível.

Construí-lo a partir

da luz e das trevas.

Ou destruí-lo na luz e

nas trevas.

É essa a tarefa, pois

o mundo visível,

que consideramos uma unidade, é

construído na sua

forma mais agradável

a partir desses dois

princípios.»

(Goethe, PhysikalischeVortrage, 1806)


  1. Esta frase acompanha-me desde que comecei a trabalhar a grafite. E isso aconteceu, ainda trabalhava na Avenida 211, quando comecei a manifestar em desenho a minha experiência na leitura das «Confissões de Santo Agostinho» (edição Livraria A.I.-Braga, 2008, apresentação por Eduardo Lourenço).Exposição que apresentei em Maio de 2015na Capela da N.Senhora do Monte, na Graça, a que dei o título «Se não perguntarem eu sei».Achava que esta frase pertencia ao «Pensamento Morfológico de Goethe» traduzido pela prof. Maria Filomena Molder, texto que me acompanha sempre... quando tive de localizar a origem descobri que faz parte de um capítulo intitulado «Luz e Trevas» do livro «Alquimia & Misticismo» (Alexander Roob, Taschen,2001), esquecido, como sempre, tinha sido tocado pela "óptica visionária" (que distingue três níveis ascendentes de visão: o olho da carne, da razão e da contemplação mística...) de J.Böhme e Agostinho:

"com os olhos nos quais a vida se gera a si mesma dentro de mim"

...


Somnia a Deo missa


  1. Este desenho surge durante a demanda/pesquisa da Luz e das trevas, inspira-se muito nas gravuras da obra-primeira de Robert Fludd, «utriusque cosmi», mas o que me impressionou nos desenhos foi aquilo a que designei como uma patine mística... assente no conhecimento, relacionadas com um determinado conhecimento.(...a matéria é luz condensada)


E não me lembro porquê relacionei essa impressão com a frase que li em «Psicologia e Alquimia» de C.J.Jung (Introdução à problemática da psicologia religiosa da alquimia - "O fiel não pode contestar o facto de que há «somnia a Deo missa» (sonhos enviados por Deus) e iluminações da alma impossíveis de serem remetidas a causas externas. Seria uma blasfémia afirmar que Deus pode manifestar-se em toda a parte menos na alma humana.".O círculo de baixo é a blasfémia e o de cima o facto (incontestado)...


Robert Fludd was a respected English physician (of Welsh origins) employed at the court of King James I of England. He was a prolific writer of vast, multi-volume encyclopaedias in which he discussed a universal range of topics from magical practices such as alchemy, astrology, kabbalism and fortune-telling, to radical theological thinking concerning the inter-relation of God with the natural and human worlds.Between 1617 and 1621 the English physician and polymath Robert Fludd published his masterwork Utriusque Cosmi, a book split into two volumes and packed with over 60 intricate engravings.

Mas porque é que refiro estes exemplos? Porque a escrita faz sempre parte do meu trabalho enquanto artista, para mim são indissociáveis - desenho e escrita.

Quando desenho interajo com a escrita sobretudo através da leitura - não forçosamente relacionados através de um tema construido na imaginação - o que desenho pode não ter a ver diretamente com o que ando ou acabei de ler, pode ser uma influência discreta ou simplesmente uma distração da mente, ou, quando escrevo o desenho pode ser anotação...

No caso especifico e único do conjunto «Diálogo com Llansol» essa relação é intima - enquanto desenhava repetia muitas vezes, algumas em voz alta, a frase decorada e pensava nos seus sentidos. E explicita - porque se afirma como legenda e conduz a imaginação de quem olha para o desenho.

  1. LUZ e TREVAS

Nos "Estudos para a criação" a luz nasce, irrompe das trevas, reafirma-se e adquire a forma de um casulo (fénix)... mas eu desenhei de forma inversa, não desenho a luz (a luz já lá está na folha do papel), o que desenho, e preencho, são as trevas, percebi então que estava a criar uma nova relação da qual nunca tinha dado conta. Ou melhor ainda, entrei numa relação sagrada através do desenho.

"quanto mais profundo, quer dizer, quanto mais existente e real é o espírito, tanto mais exprimível e exprimido" (o quimico e o alquimista, M.F.Molder)


«ARS TOTUM REQUIRIT HOMINEM» (arte requer o homem total)

TEM TUDO A VER COM IMAGINAÇÃO (como insiste Apolo no romance que escrevi e fiz uma restrita edição em 2012) e no meu caso com o desenho também, tudo o que refiro é em relação a isso - desenhar.

E se «a imaginação é a divindade no sujeito, que torna humano o humano» então torna-se para mim fundamental desenvolver a minha espiritualidade/imaginação e a minha relação com o divino, com Deus para ser mais preciso, tudo isso está sempre presente no meu trabalho claro, mas a relação existencial entre Luz e Trevas, vida e morte, é outra história, na verdade, outra questão...

«a alma possui a dignidade de um ser que tem o dom da relação consciente com a divindade»(c.j.jung-psicologia e alquimia).

Lisboa, 18 de Fevereiro de 2017

a.guerra santos




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